O mundo da música fervilhava entre o impacto do punk, os primeiros passos do rap e o ódio de morte entre rock e disco sound. E a história consagrou vencedores e vencidos. Mas nem sempre terão de pertencer à vanguarda criativa todos os que vivem à frente do seu tempo. Quatro anos antes de Sonny Crockett e Rico Tubbs invadirem a televisão, já Miami Vice tinha banda sonora apropriada para os seus flamingos rosa e blazers brancos. Na voz de Christopher Cross, o suave “Sailing” foi um sucesso de tal magnitude que reavivou a chama do yacht rock dos Loggins & Messina de Full Sail ou Crosby, Stills & Nash de CSN. E foi o suficiente para arrumar com os Steely Dan ou os Doobie Brothers. Inventivo, com irresistíveis harmonias vocais, construção rítmica perfeita e um vertiginoso “Ride Like The Wind” a implorar uma cena de perseguição com um Ferrari Daytona Spyder (como o de Crockett, que por acaso vivia num iate), é único. E para quem associa Cross ao abrir de portas que trouxe atrás o pior de Toto, Hall & Oates ou Chicago, convirá lembrar que este álbum lhe rendeu quatro Grammy mas que o peso da adoração pública o paralisou – entre prémios, vendas de milhões e Oscar para “Arthur’s Theme”. Hoje o soft rock é menos um género do que um insulto. Mas há neste álbum muito mais a descobrir. Basta ainda ouvir “I Really Don’t Know Anymore”, com Michael McDonald na segunda voz, “Never Be The Same” ou “Poor Shirley”. Para citar Sonny Crockett: “Nice to know there’s still a little poetry left in the world”.
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