Os dias vão ser cheios de sol, flores e mar – pelo menos era, inesperadamente, a previsão dos Can. Desde o revolucionário ano de 68 que, pela utilização liberal de sintetizadores, música étnica, distorção e ruído, se empenhavam em destruir barreiras, combinando a curiosidade melódica de uns Popol Vuh com o impulsivo metrónomo dos Neu!. E ainda hoje surpreende Future Days em nada difundir uma nefasta ameaça de um futuro em que as máquinas ganhem a guerra contra a humanidade ou outro semelhante agoiro. É antes a banda sonora que se espera ouvir nos altifalantes cuidadosamente camuflados do Sea Dome – a praia artificial construída no Japão vinte anos depois do lançamento deste LP. “Future Days” pode começar com o canto de aves (assim como “Bel Air”) e um som que sugere aspersores automáticos de relva, e “Moonshake” pode insinuar um ritmo soul inventado para um passeio marítimo, mas há sempre qualquer coisa nos Can – ou nas inusitadas vocalizações de Damo Suzuki, aqui em despedida – a lembrar que nada disso é real. E essa era naturalmente a sua intenção – afinal, como o mais conseguido new age veio confirmar, a melhor música ambiente é a que sugere em pormenor a ausência do espaço físico. Por outro lado, haverá que associá-los ao jazz e a um funcionalismo cósmico herdado de Stockhausen. Mas naquele que é o seu momento máximo de equilíbrio formal, conseguem o maior trunfo do minimalismo melódico – a recriação da Natureza por alguém que sobre ela tenha lido tudo, mas que nunca a tenha visto.
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