Enterrado o machado do tropicalismo, exaltada a Bahia de “Atrás Do Trio Elétrico”, ultrapassada a depressão do exílio londrino, saudado o reggae em “Nine Out Of Ten”, redescoberta a infância em Araçá Azul (como um Meu Pé de Laranja Lima filtrado por Godard), definida uma cristalina dimensão estética em Jóia, celebrados os Beatles na capa e temas de Qualquer Coisa, aceite a frivolidade dos Doces Bárbaros, convocado o juju nigeriano para Bicho, estreado “O Leãozinho”, festejados Muitos Carnavais, enfim, parecia que tudo se alinhava para que a escrita de canções de Caetano Veloso – futuramente consagrada – pudesse fluir livremente sem constrangimentos históricos de estilo ou conteúdo. E era isso que o orientalista “Terra” sugeria: com versos (“Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia, foi que eu vi pela primeira vez as tais fotografias em que apareces inteira, porém lá não estavas nua mas sim coberta de nuvens”) que evocavam um traumatizante momento de cativeiro para logo o reconverter numa declaração de amor ao planeta. Só que Muito, o primeiro disco com A Outra Banda da Terra, foi arrasado pela crítica, a rádio não o passou e poucos o compraram. Ninguém queria um Caetano com o passado resolvido. O tempo tudo corrigiu e a pianíssima sofisticação que ensaiaria em Uns é já aqui reconhecida, bem como o hedonismo estival de Cinema Transcendental ou Cores, Nomes. Depois, há funk, a guitarra de Sérgio Dias, o coro de “Muito Romântico”, as sombras de Jorge Ben e João Gilberto, e “Sampa”. E chega.
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