A carreira de Bob Dylan é como a imagem do maior, mais ornamentado e luminoso carrossel de sempre. E na vertigem da sua perpétua rotação, a custo, começamos a reconhecer temas, decoração, alegoria. Mas ao fim de algum tempo, até os seus sons, luzes e cores criam enfado. É então a altura de olharmos para quem lá anda. E é aí que nos prende. Depois de Blonde On Blonde, só voltaria a editar um LP de originais em 68. Mas, mais de um ano sem gravar quando a música popular se transformava a cada mês, não era nada para quem tinha estatuto de salvador. E os fãs quereriam mais do que notícias de um acidente de mota. Enquanto líder da canção de protesto do folk revival, tinha enfurecido muita gente ao ligar-se à corrente no Newport Folk Festival. E depois precisou de ajustar contas com Highway 61 Revisited: mas Blonde On Blonde foi o ponto em que não tinha nada a provar. Volta ao folk, blues e country, adiciona cinismo e surrealismo à equação. Estão com ele os músicos que viriam a ser The Band, mas nada desvia a atenção da palavra. Gravado, em parte, em Nashville, revelava já a direcção que iria em breve tomar. E as letras só na aparência lembram poesia beat. Explora universos sem nunca parecer especialmente interessado em revelá-los – a questão “How can I explain?”, de “Visions Of Johanna”, é retórica. Aqui começou um caminho sem nunca olhar para trás, mesmo se era seguido por milhares, de anfetaminas e pérolas na mão como a menina de “Just Like A Woman”. Nunca escondeu a sua absorção e talvez por isso se tenha transformado num ícone para o fim dos tempos.
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