Há coisas para as quais é melhor não se olhar muito de perto. Se Less Than Zero, de Bret Easton Ellis, fazia um ano antes os pesadelos dos pais de adolescentes, o que dizer dos retratos da América provinciana que Steve Albini traça com a mão segura de quem viu tudo com os próprios olhos? Atomizer fala de racismo, pedofilia, ganância, dependência, fogo-posto, maus-tratos ou veteranos de guerra, e termina com uma visita ao matadouro local encontrando quem tenha verdadeiro zelo profissional. E se só passar os olhos pelas letras já é como ser-se esbofeteado (numa variação antiliterária do ensaiado por Nick Cave), a música é mesmo equivalente ao proverbial pontapé no estômago. O uso obsessivo de uma caixa de ritmos foi mais um entre tantos elementos apropriados pelos neo-industriais Nine Inch Nails ou Ministry (que Albini odiava), embora, infelizmente, a ética profissional que os Big Black tentaram trazer ao negócio da música – afastando-se deliberadamente das práticas das grandes editoras – não tivesse aí grande impacto. Mas Albini veio a transformar-se no padrinho da música underground americana, e entre as muitas centenas de álbuns em que surgiu como engenheiro de som, destacam-se os de Nirvana, Pixies, PJ Harvey, Will Oldham, Fugazi ou Nina Nastasia. Entre a violência da música e a azia que causavam as letras, muitos recuaram com alguma náusea sem perceber que era esse o sentimento certo para tudo compreender. E se Ellis já recebe correio de fãs que ainda não tinham nascido em 85, Albini não merece menos.
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