Em My Mama Never Taught Me How To Cook, a colectânea que reúne X-Dreams com Perfect Release, surge uma citação de Annette Peacock relativa a dezenas de comparações com Patti Smith: “I’m always being compared to people who ought to be compared to me, except that I’m
not famous and successful enough”. Pode parecer egocentrismo, mas é um facto que em 78 contava já 10 anos de carreira. Começou por aprender piano clássico para se converter ao jazz. Casou-se com o contrabaixista Gary Peacock e pouco depois tocava com Albert Ayler na Europa. Teve nova relação com o pianista Paul Bley – com quem exploraria a electrónica no Synthesizer Show, em que tocava um protótipo oferecido por Robert Moog. Mas a sua voz quente e profunda começou a querer ganhar protagonismo. Por isso, em finais dos anos 70, decide – no meio do turbilhão do punk – actualizar de uma só vez o papel da cantora feminina na década anterior: do blues em Janis Joplin ao folk em Joni Mitchell, do jazz em Patty Waters ao pop em Laura Nyro. Pelo caminho, produziu os melhores álbuns que Rita Lee nunca gravou. Chris Spedding na guitarra, Bill Bruford e Rick Marotta na bateria, Jeff lyne no contrabaixo e mais uma mão-cheia de músicos oscilam entre o mais li bertário rock harmolódico e a banda de bar de hotel, entre a exactidão funk dos Steely Dan e a dinâmica expansiva do jazz-rock dos Nucleus. Patti Smith parecia dizer que ser mulher não fazia diferença e Debbie Harry revertia ao estatuto de pin-up. Aqui apresentava-se uma figura sensualmente tão complexa que o tempo tratou de a esquecer. Ou quase.
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