Depois de alguns anos (leia-se álbuns) às voltas no seu mundo muito particular e pessoal – que a levaram a enveredar pelos caminhos praticamente inaudíveis de Medúlla e da banda-sonora de Drawing Restraint 9, uma das aventuras cinematográficas do
seu marido e artista plástico Matthew Barney –, Björk resolveu voltar a abrir a concha. Volta é uma viagem musical intensa e, como forma de afastar o perigo, a artista resolveu socorrer-se de alguns dos superheróis musicais do momento. Timbaland, o produtor com o toque de Midas; Antony Hegarty, o cantor da voz de ouro; e Konono Nº. 1, projecto (re)conhecido pelos seus pianos mágicos, são apenas três dos amigos que Björk ousou deixar entrar no seu conturbado universo sonoro.
Volta traz de novo o estímulo da dança – mas reconfigura-o para o século XXI. As batidas retorcidas de Timbaland, presentes no primeiro single «Earth Intruders» e no magnífico «Innocence», transformam movimentos de anca numa aventura cósmica desequilibrada que vence sem resistência a força da gravidade. Todo o álbum soa a emergência no Planeta Terra, as canções são solenes, irreverentes e encantatórias. A expressão maior dessas três características chega com «The Dull Flame of Desire», batalha vocal entre duas das personagens mais singulares do universo pop inteligente das últimas décadas. O timbre intenso e encorpado de Antony Hegarty (líder dos Johnsons) é o contraponto perfeito para a tonalidade infantil de Björk. A canção estica os limites do formato, prolongando-se pelos sete minutos e meio mais intensos que 2007 viu surgir. Antony surge novamente em «My Juvenile», que encerra o álbum, mas sem o efeito imponente do primeiro dueto.
Os momentos que elevam verdadeiramente Volta a um nível mais avançado são, além de «The Dull Flame of Desire» e «Innocence», o brilhante e bem soprado «Vertebrae by Vertebrae» e o intenso, evolutivo e quase punk «Declare Independence» (assinado em parceria com Mark Bell, companheiro musical de longa data), com as suas interferências arranhadas, gritos animalescos e batidas violentas a deixar os ouvidos pasmados com tamanho arrojo. «I See Who You Are» e «Pneumonia» protagonizam os momentos mais intimistas do álbum, recuando momentaneamente até ao longínquo Vespertine, enquanto «Wanderlust» se deixa esticar até ao espectro mais alucinado de Post. Volta conseguiu resgatar Björk das malhas do recolhimento e trazê-la de regresso ao universo pop, aquele que a viu crescer como uma das artistas mais inovadoras das últimas duas décadas.
Fulltrack
TrueTone
Polifónico
Imagens
Vídeos
Para comentar este álbum é preciso registar-se primeiro.
Não existem comentários. Sê o primeiro a deixar um comentário.