Os manuscritos mais antigos da Bíblia referem 616, e não 666, como o número da Besta. Mas,
obviamente, a banda de Steve Harris sabia como contactar o outro lado sem recorrer a indicativos. Com Bruce Dickinson como novo vocalista (que, como convém, tinha sido recrutado em Reading na tenda de cerveja), o grupo britânico estava prestes a ter a voz mais reconhecível de um género em que abundavam vocalistas idiossincráticos. O seu tom semioperático é um gosto adquirido, mais Ozzy do que Lemmy e, paradigmaticamente, sem uma sombra de blues. E embora pareça que os Iron Maiden foram sempre os tolerados enviados
das trevas, The Number Of The Beast teve vida dificultada nas ondas hertzianas dos EUA
graças a um lobby cristão ofendido com letras como “I’ll possess your body and I’ll make you burn” ou “I have the power to make my evil take its course”. Mas, tal como o Jean-Luc Godard de Je Vous Salue Marie, viriam a conquistar uma Europa mais distante da Idade Média. Aliás, nas letras dos Maiden há uma preocupação poética que não deixa de surpreender: “When the priest comes to read me the last rites, I take a look through the bars at the last sights”, cantam em “Hallowed Be Thy Name”, retratando o último dia de um condenado à morte e trazendo à memória Victor Hugo, ou “White man came across the sea; he brought us pain and misery, he killed our tribes, he killed our creed”, em “Run To The Hills”, descrevendo
o genocídio dos índios norte-americanos. São simultaneamente o antes e o depois do
heavy metal clássico.
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