Nada na música ganha o coração dos Americanos como uma banda estrangeira convencida da grandiosidade do seu país e da originalidade das suas raízes musicais. Os Stones aprenderam a lição, passaram os apontamentos a quem quisesse tentar a seguir e os U2 foram os proverbiais aprendizes que ultrapassaram os mestres. Os irlandeses tinham, no entanto, um trunfo escondido para a conquista do novo mundo: Deus. Não passa despercebido o tom evangélico (as cruzes, sangue e fogo purificador presentes nas letras) de Joshua Tree. E toda a epopeica imagem desenvolvida em torno da América como terra prometida (para os cristãos) e da oportunidade (para os U2, neste caso), é uma armadilha de retórica que pode bem ser o único factor a impedi-lo de envelhecer bem. Tanta fé é difícil de engolir, mesmo se o grupo não quer passar por ingénuo e consegue criticar o governo em dois temas (em “Bullet The Sky Blue” e “Mothers Of The Disappeared”). Mas a invulgar mestria sobre os fundamentos do gospel, blues, country, soul e r&b servem para levar a incursão a bom porto. Acima de tudo, é um imperturbável manifesto de maturidade da banda que tinha cartão-de-visita no especificamente militarista “Sunday Bloody Sunday” e que o havia já reconvertido no universal hino racial de “Pride (In The Name Of Love)”. Dois Grammy – um deles para melhor álbum do ano – premiaram o esforço. Daniel Lanois e Brian Eno terão quota de responsabilidade e até a sessão de fotografia de Anton Corbijn, no deserto, lhe assenta que nem uma luva.
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