Um novo disco dos animal collective tinha desde logo um «inimigo» imprevisto: um álbum como Feels é o pior pesadelo de quem tem a intenção de lhe criar um sucessor, por ter estabelecido uma espécie de requisito mínimo de qualidade. Feels era um disco perfeito na forma como caminhava no limbo entre a canção e o experimentalismo; um prolongamento do trabalho começado em Sung Tongs, o disco que trouxe aos Animal Collective outra exposição. Eles que começaram por experimentar totalmente sem rede estão agora a subverter canções com a rebeldia de quem não concorda com as regras estabelecidas – ao ver o quanto evoluíram desde a primeira aparição até aos dias de hoje torna-se difícil acreditar que os Animal Collective existem apenas neste década. Os Animal Collective não quiseram trocar as voltas com Strawberry Jam (a estreia na Domino), e muito menos construir um disco que se sobrepusesse a Feels; optaram antes por um álbum que complementa o disco anterior, que lhe dá um seguimento sem se repetir. Continua a residir no trabalho dos Animal Collective a visão de um Brian Wilson (interpretado aqui por Panda Bear) em experiências bizarras, a brincar com a pop e a imputar-lhe uma forte dose de inocência e puerilidade. Cada vez mais longe da etiqueta freak-folk que lhes atribuíram aquando do lançamento do celebrado Sung Tongs, os Animal Collective vivem a liberdade do formato da canção pop como poucos. Constroem a base através de camadas sucessivas e vão adicionando-lhe os ingredientes principais: as guitarras em ácidos, as vozes ao alto, os efeitos e bizarrias, a percussão itinerante e celebratória – «Fireworks» é isto e muito mais. Em «Winter Wonder Land» os Animal Collective fomentam a felicidade quase violenta, quase insana, apesar de parecerem insinuar por vezes o contrário com as palavras – levadas pela velocidade com que a canção começa e acaba. E o que fazer com «Chores», se esta se atravessar no dia-a-dia mais comum, senão permitir-lhe a demência e o atrevimento que insinua? Em momentos como estes, os Animal Collective de Strawberry Jam conseguem aproximar-se do brilhantismo de Feels, e é fácil perceber o conforto de Panda Bear, Avey Tare, Deacon e Geologist ao explorarem estes territórios férteis. Mas como o colectivo sempre pareceu querer fugir ao conformismo, é possível que um próximo tomo veja os norte-americanos a fugir daquilo que eles próprios criaram. Assim são os Animal Collective: não perguntam a um pé se podem dar o passo seguinte. E o caminho está livre.
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