Sob um determinado prisma, Sound of Silver parece o primeiro álbum dos LCD Soundsystem. Não apenas porque a estreia homónima soava como uma compilação de singles (mesmo não o sendo), mas também porque Sound of Silver tem
a espessura que normalmente se encontra nos primeiros álbuns e que se faz de certezas, de uma confiança que chega a ser desconcertante e que é própria de quem está plenamente seguro do que quer fazer na música.
O confronto com a indústria e a forma encontrada para lidar com poucas vendas ou com vendas em excesso normalmente tem efeitos nefastos nos segundos álbuns – mas tal não acontece em Sound of Silver, um disco extremamente sólido, feito de canções que de facto parecem canções e de emoções reais a que nos podemos ligar.
No passado, James Murphy preferiu uma abordagem, digamos, intuitiva à arte das canções, debitando letras que soavam improvisadas – e provavelmente eram mesmo. «Losing My Edge», por exemplo, parece fruto desse repentismo. Agora, o cuidado é obviamente outro. Ouvindo «All My Friends» percebe-se que Murphy está a tentar ser ouvido para lá das colunas dos clubes que debitam a sua música. E o facto dessa canção se elevar acima das vozes de John Cale ou dos Franz Ferdinand significa que tem alma.
E essa é provavelmente a inversão que explica que a mesma matéria sónica que já animava o material anterior a Sound of Silver resulte agora mais… emocional.
Talvez seja da idade: Murphy está mais próximo dos 40 do que alguém da sua idade provavelmente desejaria. Mas também é a idade – e as décadas de audição das bandas todas que enumerava em «Losing My Edge» (e mais algumas ainda…) – que lhe dá a
autoridade para pilhar no passado os impulsos que necessita para erguer as suas canções. E que lhe dá a visão para «All My Friends»: «we set the controls for the heart of the sun / one of the ways we show our age» ou «i wouldn’t trade one stupid decision
/ for another fi ve years of lies». Quando o ritmo é a miragem e o abandono é o objectivo ninguém puxa do bilhete de identidade. Mas Murphy faz mais do que exibir os anos que lhe pesam nos ombros: coloca um enorme espelho à sua frente. «Sound of silver talk to me / makes you want to feel like a teenager / until you remember the feelings of / a real life emotional teenager / then you think again».
Sound of Silver resulta perfeito nas pistas – são nove canções pulsantes, produzidas na perfeição – e também no irmão mais novo e digital do walkman: dentro da cabeça a dança prossegue, mas as melodias, os pormenores, as palavras e os arranjos sobrepõem-se à força. E isso, acreditem, é a marca de um grande álbum.
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