Embora não corresponda inteiramente à verdade, Rock Bottom ficará sempre como o álbum da convalescença de Robert Wyatt. Na noite antes de começar os ensaios, o ex-baterista e cantor dos Soft Machine e Matching Mole calculou mal um salto de uma janela e ficou paraplégico. Mas se é verdade que os meses de recuperação – e a inimaginável aceitação, aos 28 anos, do resto da vida numa cadeira de rodas – não puderam deixar de influenciar o seu resultado final, a maior parte das composições estavam já preparadas. Inspirado, como o próprio conta nas notas da reedição em CD de 98, pela estada numa velha casa da ilha de Giudecca com vista sobre a lagoa de Veneza, não lhe faltam os motivos aquáticos, em frases como “Partly fish, partly porpoise, partly baby sperm whale” ou “Seaweed tangled in our home from home”, nem os ritmos circulares das marés. Wyatt aprendeu a tocar bateria com um músico de jazz e estabeleceu-se nos meios do rock progressivo e da cena de Canterbury, mas aqui as suas influências são perceptíveis de uma forma menos derivativa do que em The End Of An Ear, por exemplo – os temas parecem crescer e desenvolver-se de forma orgânica, sem óbvias marcações de ritmo ou protagonismo instrumental de convidados como Fred Frith, Hugh Hopper, Mike Oldfield ou Gary Windo, até se fundirem num só corpo. Rock Bottom começou como uma carta de amor a Alfreda Benge – que havia de ser a mulher de Wyatt, ilustradora das suas capas e sua letrista – e foi nisso precisamente que se tornou.
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