Há quem tenha princípios… e depois existem os Fugazi. Nove anos depois de Repeater, o filme Fight Club tornaria célebre a frase “You are not the contents of you wallet”, num monólogo que põe em causa muito daquilo sobre o qual assenta a identidade moderna: dinheiro, poder, aspecto, originalidade. Mas em 90 já os Fugazi gritavam “You are not what you own” e viviam segundo essas palavras de ordem. Passados 17 anos do lançamento de Repeater, é quase inimaginável que tenha existido (e ainda mais que continue no activo) um grupo que não vende t-shirts e posters e não dá entrevistas a publicações que cedam espaço publicitário a marcas de álcool e tabaco. Dentro da cena hardcore de Washington DC, Ian MacKaye já era das pessoas mais admiradas pelos milhares de miúdos que tinham acordado para a música com os Minor Threat e que viam na sua Dischord a extensão empresarial do mesmo tipo de valores e ética que exibia em palco. Com Guy Picciotto, Brendan Canty e Joe Lally, refundou nos Fugazi o centro de gravidade moral para um tempo que, entre a consagração de MC Hammer e Vanilla Ice, não dependia propriamente da honestidade criativa. Com um gozo mal disfarçado por digressões a tender para o rock de estádio (confessaram gostar de ter o público a cantar com eles a plenos pulmões) e práticas rítmicas que não diferem de uma ideia de funk comum, por exemplo, aos Red Hot Chili Peppers, lembram a frase de Perry Farrell sobre o fim dos Jane’s Addiction (“we don’t want to be like the Rolling Stones”), mas parecem ter sido os únicos a levá-la a sério.
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