Entre Reagan e Thatcher, revoluções no Irão e na Nicarágua e a invasão do Afeganistão pela União Soviética, o receio de ver o mundo acabar numa luz branca e quente não era domínio exclusivo da ficção científica. E poucas coisas como Remain In Light ecoam de forma tão fiel a esquizofrenia cultural dos anos 80 norte-americanos, entre o conforto material, um clima de conservadorismo e a ameaça constante da aniquilação. Era o princípio da era da informação e, simultaneamente, da suspeita de que a verdade era uma noção mais política que filosófica. Em “Crosseyed and Painless” ouve-se “Facts lost – facts are never what they seem to be… No information of any kind”, para “The Great Curve” prosseguir com “Sometimes the world has a load of questions, seems like the world knows nothing at all” e tudo culminar no “And you may ask yourself – Well, how did I get here” de “Once In a Lifetime”. Mas, como se sabe, a iminência do fim produz gestos libertadores. David Byrne, Tina Weymouth e Jerry Harrison, com a colaboração de Brian Eno, experimentaram afinações invulgares, atribuíram funções rítmicas a todo o tipo de dissonâncias, quebraram linearidade em letras, melodias e guarda-roupa, sonharam com uma Motown sediada nas Caraíbas, criaram hinos para a América provinciana até que, finalmente, somaram tudo isso (ou o que o seu produtor tinha feito também com os Devo) ao quarto mundo de Jon Hassell. Intelectual e conceptualmente estimulante, não deixa de ser um festim para os sentidos. É uma barra energética para toda a cultura popular.
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