“You are the first generation raised without religion” é a epígrafe para a história “In the Desert”, de Douglas Coupland, que por acaso é dedicada a Michael Stipe mas tem em Mark Kozelek a alma gémea. O protagonista do conto caminha pelo deserto californiano enquanto vai tentando fazer sentido da vida na ausência de Deus e do Futuro, mesmo se ainda acredita em ambos. Tal como nesta viagem, Red House Painters é a crónica do momento em que se percebe que as pessoas podem partir e dos instantes de dor que raramente têm conserto. Kozelek partilha da obsessão pela inexorável passagem do tempo (cantando “I’ll never be able to relieve this day, except in memory”, em “Rollercoaster” ou “Caught up in lost times of youth that I miss”, em “Grace Cathedral Park”), pela necessidade de analisar exaustivamente relações falhadas (com frases como “I know for sure you’ll never be the one”) e, claro, por si próprio (“I want to be mothered, I want you to give attention to my belly button”, clama em “Mother”). Mas relata simultaneamente uma infância abusiva e uma adolescência problemática com uma honestidade que podia incomodar os mais ingénuos. Neste primeiro álbum – depois de um mini-álbum de estreia que fez sonhar com uma nova idade ouro para a 4AD – nunca abandona a angústia, a melancolia e um certo desespero que só ganha alívio entre o abraçar da nostalgia e o encolher de ombros. É menos o retrato da solidão do que o medo de já não se conseguir sentir outra coisa. E desde então, a solo, com os Sun Kil Moon ou no cinema, não tem feito outra coisa senão dele fugir.
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