Após um álbum gótico, nada como outro álbum gótico. Até para relembrar que o mais visível do período não eram as bandas relembradas na febre do punk funk. E uma vez que a referência Poltergeist se esgotou, os Cure terão de ficar associados ao outro sucesso de bilheteiras do ano, E.T. The Extra-Terrestrial – o que, bem vistas as coisas, até se revela apropriado. Tal como o mundo nunca mais foi o mesmo depois de conhecer o rosto de E.T., também os penteados e o uso de batom no pós-punk jamais se refizeram da aparição de Robert Smith; além de que, após o choque inicial, quer um quer outro acabaram por se revelar criaturas particularmente benévolas e inocentes. Mas no que diz respeito a som e imaginário, Pornography é o álbum mais negro dos Cure: não estamos no mundo de Oz de “Boys Don’t Cry”, e muito menos na fantasia de “Friday I’m In Love”, mas antes no Kansas da Grande Depressão em que “It doesn’t matter if we all die”. Comparando com outras bandas, o desespero nos Cure torna-se mais cortante – em vez de niilismo, sofrem a sério, como qualquer romântico de armário. Assim, em “One Hundred Years”, tanto ouvimos um desejo de morte como a súplica “Please love me”, numa mal disfarçada “prayer for something better”. A diferença é que aqui não existe um mundo de sombras criado para servir propósitos estéticos, mas sim uma emotiva e brutal luta com o universo sufocante de um depressivo. Claro que conquistariam os tops com outros álbuns, mas nunca como aqui interpretaram o delírio de quem está perdido e longe de casa. Não foi para isso que vieram ao mundo?
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