É sempre interessante ouvir o trabalho de artistas que cresceram sem prestar grande importância à música, especialmente quando a História está cheia de prodígios que escreveram as primeiras obras aos quatro anos de idade. E Edgar Froese cresceu com outros interesses: era a pintura surrealista e a literatura que o inspiravam. Agora, ouçam-se os primeiros quatro álbuns dos Tangerine Dream e o que se pressente é o progressivo despojamento de uma banda de acid rock interessada simultaneamente nos Grateful Dead, John Coltrane e Karlheinz Stockhausen – ou melhor, no que de comum os unia numa visão mais cósmica. E, finalmente, em Phaedra, cá estão as paisagens próximas do Vangelis de L’Apocalypse Des Animaux ou dos mais etéreos momentos do Brian Eno de Another Green World. Como uma versão amadora da Mother Mallard’s Portable Masterpiece Co., Froese, Peter Baumann e Christopher Franke entregaram-se às possibilidades dos primeiros sintetizadores como se fossem pintores, espraiando-se em plácidos motivos e astrais variações do que Ash Ra Temple ou o Cluster 71 tinham inscrito na ordem terrena. Numa espécie de caos organizado que antecipa o Klaus Schulze (antigo colaborador) de Moondawn ou, no limite, refere o mesmo tipo de imprevisível discursar tímbrico do Mike Oldfield de Tubular Bells, tudo aqui, de forma algo inglória, ganhou herança no new age, em bandas sonoras de filmes de ficção científica, no trance e na música electrónica minimal. Mas, como um Magritte para a década de 70, uma legendagem justa para Phaedra seria: isto não é música electrónica.
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