Que eles são grandes já se sabe – mas desta vez os Radiohead conseguiram o pasmo geral ao editar In Rainbows por própria conta e risco. A versão digital do sétimo álbum foi vendida ao preço que o comprador quisesse pagar: o elevado valor musical estava garantido à partida. Longe vão os tempos orgânicos de Pablo Honey e The Bends, do imprescindível OK Computer, dos experimentais Kid A e Amnesiac e do intervencionismo de Hail To The Thief… Ou talvez não.
O início de um álbum conciso (ouve-se num ápice) acontece com «15 Step», de forma agreste, com batidas secas, melodias engenhosas e a dose de frescura que calha bem num tema de abertura. «Bodysnatchers» aponta numa direcção diferente, indo buscar a sonoridade rock mais despida que não se ouvia praticamente desde o registo de estreia. «Nude» não é canção nova, sofreu mutações até ser fi nalmente gravada: a versão fi nal é etérea, melancólica e não teria fi cado mal em Hail To The Thief («Sail to the Moon» vem à memória por diversas vezes). O tema mais curioso de In Rainbows é «Weird Fishes/Arpeggi». Repele tanto quanto atrai, com rodopios de guitarra e bateria a picar novos territórios.
In Rainbows apoia-se na força dos instrumentos e na voz desnudada de Yorke. De um registo a solo do cantor seria de esperar canções acessíveis e confessionais – mas o abstraccionismo de The Eraser provou mais uma vez que o grande responsável pelas líricas dos Radiohead tem a sua própria lógica. Resultado: juntou em In Rainbows algumas das letras mais directas e apaixonadas que alguma vez escreveu. «All I Need» é prova de devoção amorosa e o tema mais poderoso do álbum. «Faust Arp» é sussurrado, com restolhar de cordas em fundo e faz parar de respirar durante uns curtos dois minutos. O grande exercício vocal de Yorke chega, no entanto, com «Reckoner».
Entoada num saudoso falsete, a canção está recheada de pormenorizadas e sinuosas aventuras sonoras. No fi nal surgem três do momentos maiores de In Rainbows. «House of Cards» desarma qualquer um ao primeiro verso: «I don’t want to be your friend / I just want to be your lover» é provavelmente a afi rmação mais frontal que Yorke alguma vez ousou musicar.
«Jigsaw Falling Into Place» ganha o prémio de melhor título e cresce a cada audição, com a voz de Yorke a metamorfosear-se num tom solene. «Videotape» é sinceridade pura e o sucessor fatalmente genial de um dos temas mais complexos da história da banda: «Street Spirit (Fade Out)». In Rainbows é puramente Radiohead e isso diz tudo.
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