Convirá não esquecer que em 85 estava ainda por cair o Muro de Berlim – o que contextualiza um grupo cujo nome advoga ou descreve o colapso dos edifícios construídos no pós-guerra, regra geral pouco sólidos e perfeita metáfora para o estado das coisas na ordem mundial. Na música também alguns alicerces se estavam a esboroar, e, embora muito boa gente nos tentasse convencer de que éramos o mundo e as crianças, os Eistürzende Neubauten estavam mais interessados nas propriedades musicais de berbequins e de rails de protecção das auto-estradas, concretizando para um público letrado o futurismo vislumbrado 70 anos antes por Russolo. Em Halber Mensch atacam com um coro de tragédia grega que não ignora o poder na psique de vozes a declamar em alemão. Com menos ênfase no ruído e mais num ambiente que sugere um tanque de privação sensorial, é o contraponto perfeito para a fase berlinense dos Birthday Party e ideal porta de entrada num universo sonoro com raízes académicas nas primeiras obras de Varèse, Schaeffer ou Henry, paralelo teórico em Cabaret Voltaire, um ideário partilhado com Throbbing Gristle e que surje como uma versão moderna da Babilónia em chamas recorrente nos Coil. Na prática, é por aqui que se deve começar se o único contacto com o rock alemão passava por comprar a revista Bravo e, não sendo uma experiência fácil, é melhor que as cinco mil audições de “Alive And Kicking” e “Don’t You (Forget About Me)” então infligidas ao mundo ocidental.
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