Mesmo os mais distraídos, aqueles que pouco ligam a música e continuam a achar que o hip-hop e o rap são géneros menores e básicos – mesmo esses sabem quem é Kanye West. Ou têm pelo menos presente a imagem do College Dropout, ao lado de Mike «Austin Powers» Myers, a ignorar o teletexto, num especial de uma cadeia televisiva norte-americana, que pretendia angariar fundos para as vítimas do furacão Katrina, em Nova Orleães. Dizia então, antes de a realização ter tempo de lhe cortar o pio, Kanye West: «George Bush não gosta de negros». E a América entrava em polvorosa. Esse é Kanye West no seu melhor – sem papas na língua, presunçoso, provocador. Ou como o próprio diz em «Stronger», o magnífi co primeiro single de Graduation: «that that don’t kill me can only make me stronger». Sabe a Daft Punk mas é West ao seu melhor. Poucas edições terão alguma vez fi cado marcadas pela expectativa que rodeou Graduation – não só West se auto-proclamou líder como marcou a chegada do seu disco às lojas no mesmo dia que Curtis, de 50 Cent. A comunidade hip-hop estava em ebulição – exactamente no estado que West queria que estivesse. Mas onde Curtis é (apenas) mais um disco de 50 Cent, Graduation é a verdadeira tese e monografi a de West – quando se baseia na electrónica, faz um disco denso; quando pisca o olho à pop, torna-o peganhento, quando se veste de soul é apaixonado. Tudo por entre samples trabalhados na perfeição e ganchos colocados cirurgicamente para trocar as voltas ao ouvinte. E com direito a algumas das mais orelhudas canções de West – de «Can’t Tell Me Nothing» a «Good Life» ou «Homecoming». Pode pensar-se que toda a arrogância de West é resultado de um excesso de amor-próprio – o que ele mostra em Graduation é que é apenas sinal de uma grande inteligência. A mesma que o faz reunir-se dos melhores – mesmo quando ele próprio é, indiscutivelmente, um dos maiores criativos da sua geração e deste tempo –, de Lil Wayne a T-Pain ou ao mais inesperado Chris Martin, dos Coldplay. Kanye West vai a todas – e, o que é realmente surpreendente, sai-se bem em todas. Aliás, muito melhor do que «bem». Depois de ter «deixado a escola» e «se ter matriculado tarde», nunca um «fi nal de curso» pareceu tão brilhante. Queremos o doutoramento, já.
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