Se a História nos ensina alguma coisa é que quem está muito à frente do seu tempo é primeiro apelidado de louco e mais tarde, com sorte, reabilitado como génio. Já quando se prevêem ou se influenciam certos factos poucos anos antes do resto do mundo deles ir à boleia, o mais certo é permanecer-se ignorado.
Foi de certa forma o que aconteceu aos Felt, de Lawrence, que, apesar de terem promovido a estilização do britpop extra-Smiths com quase uma década de avanço, nunca receberam sequer um cartão de agradecimento. Ainda que raramente se tenha aventurado (pelo menos nesta encarnação) para longe de figuras como Tom Verlaine ou Lou Reed, em especial no registo vocal, Lawrence antecipou a figura do sensível artista universitário que estaria na espinha dorsal do shoegazing, do anónimo conspirador no seio da cultura popular que faria as delícias da facção escocesa pós-Pastels, do criador ao serviço da insondável musa que levaria até si os Cocteau Twins, enquanto aparentava um certo porte messiânico que viria a ser adoptado com demasiado à-vontade pelos Gallaghers da ilha. Construiu a sua biografia cantando histórias sobre Avalon, a Ilíada, Homero e Jesus. Tem neste álbum um manifesto mil vezes mais íntimo e criativo que o mil vezes mais badalado So, de Peter Gabriel (“I was heading north on a plane that was heading south” é uma frase representativa), mas quem se sentiu velho aos 20 anos
(“I was feeling the strain of twenty years, I was saying this is all there is”) e fechou a porta do quarto para gravar dez álbuns numa década não precisava de tradução.
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