Para quem estava a meio da adolescência em 89, e não vivia isolado da produção cultural norte-americana, o ano ficou na memória por duas razões: a estreia dos Simpsons e “Here Comes Your Man”. E quem correu para a loja de discos mais próxima para comprar Doolittle – contando com a repetição de um tema sujeito a adopção pela tangente surf/rockabilly –, deu com os burros na água. Era infinitamente mais abrasivo e subversivo do que indiciava, mas tornou-se num perverso aglutinador de adolescentes, seduzindo uns pelas camadas de distorção e outros pelo imediato apelo das suas melodias. Nada de estranhar de um grupo que se tinha formado a partir de um anúncio exigindo hábitos de audição de “Hüsker Dü e Peter, Paul & Mary”. Num conteúdo lírico a roçar o zapping televisivo – temáticas de sexo e violência, raptos alienígenas e referências surrealistas –, oscilava esteticamente, como se para ele confluísse a paranóia fim-de-década, como em 60 aconteceu com Trout Mask Replica, de Captain Beefheart, e em 70 com Dub Housing, dos Pere Ubu. Elíptico e ecléctico, inclui passagens da Bíblia, psicóticos relatos vindos das Caraíbas, viagens western spaghetti, contos de fetichismo – tudo com o mesmo tipo de amparo popular que, no cinema, conduziria Tim Burton ao Batman. Mais tarde, Kurt Cobain diria que “Smells Like Teen Spirit” era copiado aos Pixies, os U2 convidaram-nos para digressões e o ego dos seus protagonistas encheu até rebentar. Kim Deal voltou às Breeders e Frank Black tornou-se no Kris Kristofferson do pós-punk. A sua reunião só aumentou as saudades.
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