Vinte anos antes, a terra tinha sido visitada por um marciano. Mas muitos tinham-no já esquecido quando Björk surgiu saída dos Sugarcubes para desempenhar o mesmo papel. Tornou-se muito fácil brincar com a personagem de olhos muito abertos a observar o comportamento humano pela primeira vez e esquecer-se a importância de Debut – e como não soava a nada do seu tempo ou, já agora, de nenhum outro. A Björk terá de se reconhecer ainda o mérito de (com a ajuda de Nellee Hooper, produtor de Blue Lines e Soul II Soul) ter conquistado um lugar num nicho masculino, para logo se transformar na sua maior diva e em pouco tempo mostrar que nem para isso teria muita paciência. Por outro lado, sentir o pulso específico do seu tempo (com as ácidas “There’s More To Life Than This” ou “Violently Happy”) e inventar mundos a cada tema (“Human Behaviour”, “Venus as a Boy” ou “Big Time Sensuality” mantêm hoje o espanto da primeira audição) anunciam com pompa e circunstância a possibilidade de um novo sincretismo para a música popular – como o que bem longe dali fazia uma não menos exótica Marisa Monte. Depois há uma voz que, com o passar dos anos, mais se tolerou na inversa proporção da demonstração dos seus dotes. Arranjos invulgares – como o acompanhamento em harpa de “Like Someone In Love” e umas ubíquas tables que fariam as delícias de Martin Denny – e subversão cultural capaz de agradar a qualquer marxista fizeram o resto. Björk está hoje numa categoria própria. E ainda bem – afinal, cada artista só devia fazer de Ziggy Stardust uma vez na vida.
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