Os Scritti Politti (uma tradução algo livre do italiano para “textos políticos”) são o que acontece quando jovens membros da Liga Comunista Britânica com um fascínio por Derrida, Lacan e Deleuze viam concertos dos Sex Pistols: em vez de formar uma banda, queriam avançar com uma teoria social. Green – como admitia a crítica audaz o suficiente para reconhecer o génio do criador de Off The Wall – lembra um irmão mais novo de Michael Jackson e não é de admirar que tenha sido descrito como uma “voz que tem eternamente 14 anos”, enquanto Billy Mackenzie se roía de inveja. As orquestrações são sofisticadas para 85 – e funcionam, embora contrariem os rigores marciais dos seus primeiros singles –, mas requer esforço não contaminar a leitura com aquilo que agora se sabe: que, um álbum mais tarde, o seu abuso e diluição conduziriam a alguns dos temas mais xaroposos da década. Felizmente, há mais em Cupid and Psyche 85, passando por influências reggae, com toaster jamaicana à mistura, vocabulário que raramente aparece em canções (“prophecying”, “inconsequential”, “complacency”, “intravenous”), versos que são quase lições de filosofia (“I found a new hermeneutic, I found a new paradigm”), estrutura rítmica capaz de entusiasmar o Miles Davis de Tutu e uma teimosia em utilizar tecnologia que começava apenas a gatinhar – tudo devidamente enquadrado numa romântica actualização das aventuras do filho de Afrodite. Algures, um grupo de estruturalistas franceses e marxistas italianos tentava o primeiro pezinho de dança enquanto os Pet Shop Boys tomavam notas.
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