Bastava olhar para a capa para perceber que Paul Weller estava a tentar pôr a carreira com os Jam para trás – bem como as coordenadas Who/Kinks – reinventando-se como um sofisticado
músico de jazz da rive gauche. A revista Trouser Press disse com alguma razão que Café
Bleu era demasiado esquizofrénico para o seu próprio bem, e o choque de estilos musicais –
entre lado A e B – confundiu muitos ouvintes. Até “Dropping Bombs On The Whitehouse” temos
música instrumental para cocktails, torch songs e o brilhante “The Paris Match”, com voz de
Tracey Thorn e guitarra de Ben Watt; depois, as explorações no proto-hip hop que os Talk Talk nunca fizeram (em “A Gospel” ou “Strength Of Your Nature”), soul devoto de Marvin Gaye com “You’re The Best Thing” e o pub-folk de “Here’s One That Got Away”. As letras de Weller também oscilam – como as do próprio Gaye – entre uma azeda crítica cultural (cantando em “The Whole Point Of No Return”: “The Lords and Ladies pass a ruling, that sons and girls go hand in land; from good stock and the best breeding, paid for by the servile class”) e a submissão à nostalgia romântica: “Empty skies say try to forget, better advice is to have no regrets; as I tread the boulevard floor, will I see you once more?”. Contradizendo-se, Café Bleu só não aceita “I could be a lot but I know I’m not”, e avança resolutamente intelectual e acessível, melancólico e garrido. Quem já conhecia os Jam não ficou convencido com a conversão ao croissant no pequeno-almoço e gitane a seguir às refeições, mas houve muita clientela nova disposta a experimentar o café.
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