Uma relação amorosa que dura há um número confortável de anos, as pequenas rotinas daí decorrentes, os primeiros sinais de tédio. À partida, estes não parecem ser os ingredientes mais promissores de um disco de culto – a verdade é que é disso que Boxer, o quarto álbum dos National, é feito. O vocalista Matt Berninger, que insiste que só põe tanto cuidado nas letras porque não toca guitarra e não pode, assim, determinar a composição das músicas, baseou a maior parte das canções na vivência doméstica com a companheira. Tal como acontecera em Alligator – o disco que deu a conhecer ao mundo a banda «adoptada» por Brooklyn –, as letras saíram directamente das primeiras versões pirateadas de Boxer para as gargantas dos fãs. «O facto de as pessoas saberem as letras todas, às vezes melhor que eu e em países não falantes de inglês, acontece cada vez mais e é, de certa forma, perturbador. Mas bom», confessou Matt Berninger à BLITZ este ano, antes do concerto da banda no Festival Sudoeste. Os National (nome escolhido por, segundo o cantor, ser vago e inofensivo) são, além de Berninger, os irmãos gémeos Aaron e Bryce Dessner nas guitarras e os também irmãos Scott e Bryan Devendorf no baixo e na bateria. Os músicos são naturais do Ohio, um dos estados do interior americano, facto que alguns apontam como responsável pelo sabor a «terra» da sua música. Em Nova Iorque, os cinco amigos começaram por ter vários empregos, alguns deles ligados ao Webdesign, até decidirem dedicar-se à música a tempo inteiro. Estávamos em 2005 e Alligator, o primeiro disco fora da editora «caseira» da banda, estava prestes a defl agrar, lenta mas fatalmente, nos corações indie de todo o mundo. Na Big Apple, os National têm por vizinhos gente como Sufjan Stevens, que toca piano em «Racing Like A Pro» e «Ada», de Boxer, ou os Interpol, cujo colaborador Pete Katis ajudou a produzir o novo disco. O negrume urbano não é estranho à banda – que à simpatia pelo nervo pós-punk (ver «Mistaken For Strangers» ou «Brainy») junta uma importante componente de canção de charme. Não é complicado imaginar Berninger, daqui a 15 anos, a cantar versões trôpegas de «Gospel» ou «Fake Empire» no Casino do Estoril, com um piano e um cigarro por companhia. E depois há a vantagem de qualquer pessoa – desde a mais neurótica à falsamente pacata – poder apaixonar-se pela música dos National. Berninger explica: «há sempre alguma tensão naquilo que escrevemos. Construímos ali uma vibração para depois a libertarmos. As canções que escolhemos para os discos são aquelas a que conseguimos ligar-nos de forma emocional».
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