Ouvir os sons e as palavras que saem da garganta de Amy Winehouse faz crer que ela não pertence a este mundo ou, pelo menos, a esta era. Ninguém com 23 anos tem uma voz tão amadurecida e ninguém tão nova deveria cantar palavras tão tristes. Mas o seu culto da celebridade localiza-a neste agora, em que o ecrã suplica pela humanidade da face e do comportamento, onde o relato noticioso medido ao segundo favorece os constantes gritos de atenção e cuja geração Hi5/MySpace incita ao exibicionismo.
A forma brutal e honesta com que injecta o seu espaço privado e o seu abismo existencial na sua música servem para alimentar o circo mediático tanto como permitem acrescentar a experiência contemporânea ao padrão sonoro que tricotou em Back To Black. Ecoa o som da Motown e de girl-groups dos anos 1950-60, personalizado com a mestria com que se autobiógrafa e com que consegue criar peças singulares na escrita
de canções. O calor do som da época que convoca é subvertido através das letras, que narram uma acidez e um calão que nem um grupo como as Shangri-las se atreveu (ou era autorizado) a escrever, numa altura em que uma palavra como «fuckery» (a preferida de Winehouse) não constava do vocabulário pop. A sua escrita é espirituosa, amarga ao versar sobre aquela coisa chamada amor (embora o sexo seja mais central), com um impacto emocional desvastante e constantes alusões à forma como se auto-medicava. Winehouse é do tipo de mulher que privilegia erva e a sua própria companhia à anatomia masculina e que prefere ouvir discos de Ray Charles e Donny Hathaway
a entrar em reabilitação. A sua voz está em contacto com as suas emoções e com o seu corpo, possuindo uma expressividade, superioridade espiritual, paixão e uma capacidade de transformar sentimentos mundanos em declarações grandiosas comparáveis a cantoras jazz que já não são desta era nem estão neste mundo. Winehouse possibilita que a imponência desse tempo chegue até este não através de fantasmas ou em samples, mas sim num espaço presente. O trabalho com os produtores Mark Ronson e Salaam
Remi acrescenta uma sensibilidade hip-hop à soul e ao doo-wop teatral, aperfeiçoando uma interpretação em vez de uma mera emulação. No contexto actual, em que ouvir música se torna sinónimo de ser-se bombardeado por música, um álbum como Back To Black, tão recompensador e fácil de adorar, é um tesouro.
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