The mysterious production of eggs, em 2005, fez de Andrew Bird um nome conhecido do lado de cá do Atlântico. A França, país da arte e do intelecto, foi a primeira a render-se – via publicações como a Les Inrockuptibles – à inteligência de canções como «Fake Palyndromes» ou «Nervous Tick Motion of The Head To The Left», pontos altos de um disco prenhe de melodias memoráveis. Mas Andrew Bird está longe de ser um compositor meramente cerebral ou «laboratorial» – há medo, há amor, há pele, ou seja, há uma faceta palpavelmente humana na sua obra que, parecendo que não, começou a desenhar-se há mais de dez anos, com o primeiro álbum a solo, Music of Hair, de 1995.
Armchair Apocrypha, o disco deste ano, é eloquente prova da frutuosa convivência de razão e emoção na música de Andrew Bird. Em entrevista à BLITZ, o americano explicou que sente a sua música a caminhar rumo a uma maior depuração, mas que não chegou a esse ponto sem muito trabalho e algum experimentalismo. «No começo tinha uma capacidade de concentração muito curta, a música era muito linear e nunca repetia um refrão – ainda hoje evito isso», refl ecte. «Não gosto de ser redundante, mas ultimamente posso tocar os mesmos dois acordes todos os dias, durante horas a fi o e fi car satisfeito musicalmente». Fala Andrew Bird, o teórico: «perdoa-me o meu fraco conhecimento de Física Quântica, mas acho que a minha música cada vez está mais básica, elementar, simples. E acho que se nota que há mais dimensões nela».
Outrora comparado a Jeff Buckley, o ex-colaborador dos Squirrel Nut Zippers é actualmente um nome com valor próprio. Recentemente, Andrew Bird tem sido englobado também na categoria dos artistas que, na criação pop, se socorrem de instrumentos clássicos. A harpista Joanna Newsom ou os violinistas Patrick Wolf e Owen Pallett (Final Fantasy) são outros membros deste «clube» a que Andrew Bird não se importa de pertencer, até porque «o rock tornou-se tão auto-referencial que está praticamente a morrer».
O violino, que se dedica a tocar desde tenra idade, e o assobio que domina assombrosamente são as imagens de marca deste multi-instrumentista de Chicago. Mas poucos argumentos resultarão melhor em sua defesa do que «Fiery Crash», Plasticities» ou «Heretics», três das mais impressionantes canções que 2007 viu nascer. Desafiante, optimista e, após poucas audições, verdadeiramente viciante, Armchair Apocrypha é talvez o melhor disco de um músico tímido para quem escrever canções é, di-lo ele mesmo, «uma religião pessoal.
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