Pode uma construção humana ecoar o sagrado? A interrogação põe-se não só para edifícios utilizados para o culto religioso mas para a própria música sacra. Architecture & Morality inspira-se no ambientalismo de Brian Eno e reformula a questão enquanto premissa spiritual. O que não deixa de ser significativo. A pop electrónica de início dos anos 80 distinguia-se – em estigma que perseguiu a sua produção até ao trip hop – por uma visão algo robótica do mundo e das relações. E era comum haver quem elogiasse o seu racionalismo. Andy McCluskey e Paul Humphreys, ao terceiro longa duração dos OMD, conseguem provar a falácia do raciocínio. Torcendo estereótipos, produzem uma música quente, acolhedora, emocional e, fundamentalmente, visitada por uma constante e angélica presença feminina que não se esgota nos temas em que referem a jovem mártir de Orleães. Foi com “Souvenir” que o duo conseguiu a sua mais alta entrada no pop, seguida de perto por “Maid Of Orleans” e “Joan Of Arc”. Não era de estranhar que o assumir de uma intenção mais atmosférica chegasse na ressaca do sucesso com “Enola Gay” – e nessa perspectiva este álbum foi quase uma contrição. Se Architecture & Morality reflecte um chamamento, não podemos esquecer as palavras do evangelho de Mateus: “Pois muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos.” Poucos discípulos foram tão longe como os OMD, e neste álbum encontram-se parábolas suficientes para dar que pensar. Quem gosta de coleccionar textos sagrados, saiba que o LP saiu já em fundo amarelo, azul, verde e cinza.
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