Tudo foi dito já sobre a épica parelha de guitarras (herdada dos Rolling Stones, ZZ Top ou Aerosmith); um equilíbrio entre paranóia conspirativa e o fascínio pela violência, tão do seu tempo, está devidamente notado; cinema e publicidade tornaram momentos estéticos marcantes na transição 80/90 indissociáveis da iconografia do grupo e poucas bandas conseguiram soar tão frescas para tão rapidamente parecerem datadas. Mas num país assombrado pelo mito do “jovem provinciano cheio de ambição que chega à cidade grande para dar a volta por cima e triunfar para além de todas as expectativas”, Appetite For Destruction é ainda suficientemente indigesto para se perceber que não era brincadeira. Michael Jackson andava a cantar Bad, mas eram Izzy, Duff, Slash, Steve Adler e Axl Rose que não poderiam passar por bons rapazes mesmo que tentassem. E o vídeo para “Welcome To The Jungle”, no qual o vocalista surge ainda de palha na boca, saído de um autocarro suburbano para logo sucumbir a um universo dominado por drogas, guerra e pornografia, não andará assim tão longe da verdade. Para quem vê razões de incómodo na inabalável misoginia do grupo (mais gráfico que o robô-violador na capa originalmente prevista é difícil) talvez seja importante saber que Rose só aprendeu a odiar as mulheres por ter sido vítima de abusos em criança. Por fim, encontrou a kryptonite na ascensão de Kurt Cobain ao estrelato. Com a banda separada, anuncia Chinese Democracy há mais de uma década e promove a paródia dos seus dias de glória.
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