Quando funk, hip hop ou punk se tornaram ingredientes aceitáveis no caldeirão do pop-rock, os Faith No More de The Real Thing só podiam insinuar querer fazer jus ao título do álbum. Mas quando audições atentas revelavam um pouco judicioso uso de elementos do rock progressivo e do heavy metal mais rudimentar, ficou o caldo entornado – afinal, Mike Patton não viria dos Mr. Bungle sem trazer parte do livro de receitas decorado. Como uma violenta sublimação de referências da cultura popular, parecia menos estranho assistir a um concerto da banda e ouvir o “Easy” dos Commodores seguido do “Let’s Lynch The Landlord” dos Dead Kennedys ou do “Pump Up The Jam” dos Technotronic – como se os relógios tivessem andado dez anos para trás até Killing Joke. Essa tendência de ignorar convenções, transgredir fronteiras e baralhar as voltas à sua própria audiência tornava-se – isso sim – na técnica dominante de uma certa era de extremismo sonoro que, dos Atari Teenage Riot aos God ou dos Napalm Death aos Naked City, encontrava parodista em Patton e, nos Nine Inch Nails, acólito em Trent Reznor. Angel Dust foi o momento máximo da sua aceitação – como e David Lynch tivesse um dia encenado uma opera buffa – em que até a capa é utilizada para, possivelmente, manchar a reputação dos adolescentes que o iriam às lojas comprar. Patton veicula uma raiva articulada, como um Frank Zappa sob esteróides, encarna múltiplas personagens e conduz andamentos com uma lógica cinematográfica, culminando na versão de “Midnight Cowboy”, de John Barry, retirado de um filme que também confundiu muita gente. Daí a Fantômas foi um salto.
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