David Bowie permanecia inclassificável, os Roxy Music transformavam-se num veículo para o charme romântico de Bryan Ferry, os Led Zeppelin pareciam ser a razão pela qual tinha sido inventado o blues, os T. Rex reformulavam a canção de três minutos, os Emerson, Lake & Palmer e os King Crimson tinham conduzido o rock progressivo ao ponto de abstracção, e, é verdade, o mundo dividia-se entre fãs de Pink Floyd e dos Bee Gees. Mas nesta altura os cowboys ainda só eram conhecidos como símbolos de virilidade e muitas raparigas começavam a sonhar tornar-se na senhora Mercury. Foi então que de uma só vez todos os excessos da década (e não só) se concentraram num disco. A Night At The Opera acabou com uns Queen sem artifícios e reinventou o seu vocalista como um exuberante herdeiro de séculos de artes de palco. Foi como um novo ano zero para a criação inglesa – e, apropriadamente, acabava com o hino. Apoiados por um público saturado de genuínos e bucólicos trovadores, era chegada a hora de algo mais teatral, avesso a grandes tramas geopolíticas ou à banalidade do quotidiano. Mas Mercury esteve sempre à frente do seu tempo, e liderou os Queen para uma ópera buffa, em que apenas os mais dramáticos sentimentos ou os mais ridículos episódios eram dignos de figurar. Pelo meio, contou a sua vida inteira. “Bohemian Rhapsody” saiu já pronta da sua cabeça e o resto da banda teve de cumprir o seu papel num libretto invisível. Bravo. Em menos de dois anos preparavam-se para tomar conta dos estádios de futebol.
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